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Ativista Txai Suruí vira alvo de bolsonaristas após criticar política ambiental do governo

Na imagem, Walelasoetxeige Suruí, conhecida como Txai Suruí, discursa na Cúpula dos Líderes Mundiais na COP 26 em Glasgow

"Quando voltei da COP, um carro me perseguiu em Porto Velho. Isso me assusta", diz Txai Suruí

Os grandes representantes dos povos indígenas hoje são mulheres

Quando subiu no púlpito da Conferência do Clima de Glasgow, na Escócia, em outubro do ano passado, Txai Suruí já sabia de uma profecia feita por seu pai e seu avô, que enxergaram desde a infância que aquela jovem indígena exerceria um papel de liderança para seu povo e para a luta dos povos originários.


Ser uma “labiway esagah”, como são chamados os líderes da etnia Paiter Suruí, não só a levou ao protagonismo do principal espaço de debates sobre o clima no mundo, mas também a coordenar a entidade Kanindé, organização fundada em 1992 para dar assistência ao povo indígena Uru-eu-wau-wau de Rondônia.


“É uma grande responsabilidade, não só de estar representando a minha voz, mas a voz do meu povo, dos povos indígenas, a voz dos jovens. Mas também é uma alegria poder estar representando aquilo que eu acredito, poder estar defendendo os direitos do meu povo”, explica Txai Suruí.


A ideia conquistar a atenção internacional. “A luta dos povos indígenas não é uma luta só pelos nossos direitos ou só pelos nossos territórios, agora a gente consegue ver importância dos povos indígenas da floresta, da Amazônia para o mundo”, completa.

Txai é a convidada desta semana no BDF Entrevista. Na conversa, a jovem ativista ambiental fala também sobre como a covid-19 atingiu aldeias, sobre sua participação na Cúpula do Clima e o protagonismo das mulheres indígenas na luta por direitos.

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“Se você pegar hoje, quem são os grandes representantes dos povos indígenas, você vai ver que são mulheres. Eu sempre digo que a cura dessa Terra passa pela mão das mulheres. Quem entende melhor uma mulher do que outra mulher? E como a gente chama esse planeta, senão de Mãe Terra?”.


A ativista ainda fala sobre como tem recebido ameaças desde sua participação na COP. As agressões nas redes foram motivadas pelas falas do presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), que criticou o discurso de Txai Suruí.


“As pessoas acham que a internet é terra sem lei e às vezes parece mesmo. Mas a preocupação de fato veio quando a gente voltou aqui para Porto Velho. Fui no mercado com meu marido e um carro estava seguindo a gente, acompanhando a gente bem devagarzinho, tinha vidro fumê, então eu não conseguia ver quem era, mas foi claramente uma intimidação. Então aquilo sim, me assustou um pouco”, completa a ativista.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Você é uma jovem ativista indígena da etnia Paiter-Suruí, que carrega no sangue a luta dos povos originários. Teus pais são extremamente ativos na defesa da floresta e também das causas indígenas. Agora você se torna uma referência não só para o seu povo, mas para todos os indígenas e ativistas ambientais. Foi um processo natural essa passagem de bastão?

Txai Suruí: Meus pais são ativistas muito reconhecidos aqui no meu estado, na minha região, internacionalmente reconhecidos, e continuam sendo ativistas. Não estão passando bastão, mas continuam na luta, até porque eu acho que aqueles ali não vão parar de lutar enquanto estiverem vivos.


Há várias histórias de como meu pai e meu avô previram que eu seria “labiway esagah”, que significa líder na língua do meu povo. Hoje eu sou coordenadora da Kanindé, que é uma organização que trabalha há mais de 29 anos com povos indígenas e em 2022 a gente vai fazer 30 anos de existência.


Ela foi fundada pela minha mãe para trabalhar com o povo Uru-eu-wau-wau e hoje eu assumo esse cargo de coordenadora da entidade. Estou dando continuidade a luta que meus pais iniciaram.

Você já foi assessora jurídica da Kanindé e estava fazendo direito, já terminou?

Ainda não, estou no último semestre, se der tudo certo eu termino esse ano. Estou na última fase. Na verdade, eu comecei na Kanindé no financeiro e depois da faculdade me tornei assessora do núcleo jurídico. Agora eu assumo a coordenação.

E como tem sido essa experiência de ser liderança à frente de uma instituição tão importante?

É uma grande responsabilidade, não só de estar representando a minha voz, mas a voz do meu povo, dos povos indígenas, a voz dos jovens. Mas também é uma alegria poder estar representando aquilo que eu acredito, poder estar defendendo os direitos do meu povo.


Eu sempre tento, agora, globalizar de certa forma a nossa luta, porque a luta dos povos indígenas não é uma luta só pelos nossos direitos ou só pelos nossos territórios, agora a gente consegue ver importância dos povos indígenas, da floresta, da Amazônia para o mundo.

É isso que o mundo inteiro está falando, que sem a Amazônia a gente não tem vida. Então, ser chamado de líder, estar representando um povo, ou os povos indígenas é, às vezes, até um peso, porque você fica preocupado, tem uma responsabilidade muito grande sobre os seus ombros.


Eu sou uma pessoa muito jovem, então eu também tô aprendendo. Antes de ir para a COP, por exemplo, eu fui para a minha aldeia me orientar com meus tios, com meu pai. Eu acho que o processo de ser um líder vai muito mais da pessoa se identificar como líder.

Primeiro que o povo tem que identificá-la, tem que reconhecê-la como tal. E também passa uma coisa que meu pai me ensinou e fala sempre, que para você ser um líder, mais do que falar bem, tem que ouvir muito bem. Aquilo que aqueles que você representa estão dizendo para você, para de fato estar representando bem aquelas pessoas.


Sempre tento ter um ouvido muito aberto, sempre escutar para poder realmente levar as diversas realidades que eu estou representando, não só a minha e a do meu território.

Esse ano, o STF (Supremo Tribunal Federal) deve julgar o caso do Marco Temporal, que valida apenas as homologações de terras indígenas anteriores à Constituição de 1988. É um verdadeiro crime contra os povos que foram expulsos de suas terras, ou mesmo aqueles que tiveram o reconhecimento tardio da titulação pelo governo brasileiro. Das mais de 1.200 terras indígenas do Brasil, só 401 já estão devidamente demarcadas. Qual que é o impacto dessa votação, Txai?

Como eu falei antes, eu acho que a proteção dos territórios indígenas vai muito mais além do que a vida dos povos indígenas. Se essa tese passa, o que que acontece é que a gente está colocando todas as terras indígenas em risco.

A gente já está passando por grandes pressões, por grandes invasões, por grandes embates dentro dos territórios e se essa tese passa, a gente está decretando o fim da das terras indígenas e, consequentemente, o fim dos povos indígenas também.


Como eu falei antes, o fim da nossa vida, porque é um fato, se você pega qualquer mapa satelital, você vai ver que há presença de floresta onde há os povos indígenas. A gente tem floresta em pé, onde tem povos indígenas.

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Então, se a gente quer realmente contornar essa crise climática, se a gente quer realmente um futuro de qualidade, não só para as próximas gerações, mas para nós mesmos, porque já estamos sendo afetados por toda a exploração desenfreada, temos que ir no sentido contrário.


Sempre me perguntam, o que que a gente precisa fazer, o que o Brasil precisa fazer para mudar e contornar a crise. Eu falo e pra mim parece ser óbvio, que se onde há povos indígenas, há floresta, o que que a precisamos fazer é demarcar terras indígenas e não o contrário.

Nayá Tawane: Eu estive cobrindo as manifestações indígenas do ano passado aqui em Brasília, Levante pela Terra, Luta pela Vida, o próprio Levante pela Democracia e a segunda Marcha das Mulheres Indígenas, que reuniu cerca de 5 mil mulheres aqui na capital. Queria que você falasse um pouco sobre qual o protagonismo de vocês, mulheres indígenas, à frente de todo esse cenário de ataques pelo governo federal.

A luta das mulheres indígenas é essencial, quando a gente fala de ativismo, de luta por direitos. Se você pegar hoje, quem são os grandes representantes dos povos indígenas, você vai ver que são mulheres. Um dos grandes exemplos foi na COP-26, que a gente foi a maior delegação indígena da história das COPs.

A gente tem um grande protagonismo das mulheres na luta por seus direitos, principalmente das mulheres indígenas, que é essencial. Eu sempre digo que a cura dessa Terra passa pela mão das mulheres e passa pela mão das mulheres indígenas. Eu falei uma vez também: "quem entende melhor uma mulher do que outra mulher?" E como que a gente chama esse planeta senão de Mãe Terra?

Ou seja, a gente sabe muito bem como cuidar dela e, as mulheres indígenas, para mim, elas estão dando um show para todo o mundo de força e de resistência mesmo. Temos grandes exemplos e eu posso citar vários: a Sônia, a Alessandra Mundurukú, Célia Xacriabá, grandes mulheres e jovens mulheres também.

A gente tem a Samela [Sateré Mawe], a Alice Pataxó, que é uma grande comunicadora, e que estão ocupando vários espaços. Agora é importante falar do protagonismo das mulheres e de como as mulheres indígenas estão, não só nesses espaços, lutando realmente para construir um mundo melhor, não só para os povos indígenas, mas construir um Brasil, um país melhor mesmo.

Nessas eleições, a Apib [Articulação dos Povos Indígenas do Brasil] está querendo lançar mulheres indígenas, porque entendemos a importância e a sabe que nunca vai ter soluções diferentes enquanto tivermos as mesmas pessoas decidindo. Entendemos isso e nos articulamos para colocar mulheres indígenas nesses espaços de discussão, poder e decisão. Então, votem em mulheres indígenas, gente.

José Eduardo Bernardes: Como você citou, algumas destas mulheres entraram, de fato, na política institucional. Você também tem essa motivação?

Por enquanto não. É aquilo, eu não vou dizer que nunca mas, por enquanto, não. Eu já estou com muito trabalho aqui, eu acho que posso contribuir muito mais aqui. Mas a política vai muito mais além de se candidatar e ser eleito.

Eu já faço parte, já atuo politicamente em vários aspectos como, por exemplo, faço parte do Conselho da Criança e do Adolescente aqui do meu estado [Rondônia], como a única jovem indígena que está lá participando desse conselho. E isso é participar politicamente também, é propor políticas públicas.


A política vai muito mais além de ser eleito. A gente também tem que estar presente nesses espaços, tem que estar presente nos conselhos, nos espaços públicos onde são construídas políticas públicas e cobrar isso do nosso governo, nas assembléias, nas audiências públicas.


Sobre a questão da covid, muitas comunidades indígenas ficaram desassistidas durante a pandemia. Algumas até fizeram seu próprio sistema de saúde para combater o vírus. O governo, por outro lado, levou até as consequências esse verdadeiro genocídio. No entanto, neste mês, a gente teve um ato importante, apesar de entender todo o simbolismo político que ele resultou, que foi um indígena Xavante, de oito anos, que recebeu a primeira dose infantil da vacina contra a covid-19 no país. Os dados do Ministério da Saúde indicam que 85% dos indígenas maiores de 18 anos já estão vacinados. Esse número condiz com a realidade, na assistência aos indígenas durante a pandemia?


Indígena Davi Seremramiwe Xavante, de 8 anos, foi a primeira criança vacinada contra a covid-19 no Brasil, no dia 14, em São Paulo / Foto: Governo de São Paulo


Não, por exemplo, o meu povo, o Paiter-Suruí foi um dos mais afetados aqui no estado. Eu inclusive perdi minha avó, perdi meu tio, perdemos outros entes queridos devido à covid, devido à pandemia. A gente foi vacinado antes e isso é verdade também, e eu fico muito feliz, que a primeira criança a ser vacinada tenha sido um indígena, me emocionou muito.


A fala dele também, quando ele fala que estava fazendo aquilo para proteger a aldeia dele e mostra mais uma vez a contribuição que os povos indígenas têm para o mundo, que é uma visão de coletividade, uma visão de cuidado com o outro. Enfim, para mim aquilo foi muito bonito.

Mas durante a pandemia, a gente sofreu exatamente o que você disse, foi um genocídio. Só agora foi decretado que se coloquem em prática o que já tinha sido decidido, das políticas de proteção contra a covid em relação aos povos indígenas.

A verdade é que temos, não é de agora mas de muito antes da pandemia, uma saúde indígena precarizada. Isso não é culpa dos profissionais de saúde, é porque há pouco investimento mesmo, poucos profissionais, equipamento adequado. Muitas vezes, com essa pouca quantidade de profissionais, eles vão poucas vezes à aldeia.


Precisamos que isso seja fortalecido, pensar nesse cuidado, porque a gente pode ter perdas gigantescas se não cuidarmos dos nossos povos originários.

Mas a verdade é que vemos situações extremas, como por exemplo, o que está acontecendo com os yanomamis, com crianças morrendo de desnutrição. Isso foi causado pela questão do garimpo, mas onde estavam os órgãos de saúde para que essas crianças não chegassem a esse estado que elas chegaram?

O Brasil não assumiu nenhuma meta relevante na Conferência do Clima. Na verdade, reciclou metas já colocadas no Acordo de Paris (2015). As novas promessas foram desacreditadas internacionalmente. A COP também, de certa maneira, não engajou metas muito ambiciosas em um cenário tão urgente quanto o nosso, não é?

Sim, não. A verdade é que a gente teve uma grande presença dos povos indígenas lá, uma maior visibilidade, mas a gente ainda estava muito longe de estar realmente nas salas de decisão, onde acontecem as coisas. Ou seja, as mesmas pessoas decidindo e é claro que não iamos ter novos resultados.

E como você falou, estamos muito longe de alcançar aquilo que esperamos, estamos muito longe de alcançar aquela meta de 1.5 [graus celsius] que foi estabelecida. Com o que foi tirado da COP, a gente não alcança.

O Brasil fez algumas promessas ali que são muito difíceis de serem acreditadas, exatamente pela política que ele [país] vem colocando em prática aqui no nosso país, que é uma política contrária àquilo que prometeu como, por exemplo, acabar o desmatamento ilegal até 2030. E não é diferente do que está acontecendo no mundo inteiro.

Tivemos alguns países, por exemplo, que não queriam se comprometer e a gente tem que entender que não adianta só nós fazermos também, todo mundo tem que fazer nos seus lugares, esses outros países também precisam estar comprometidos com a agenda climática, para que a gente contorne essa crise.


Por conta dos ataques do presidente da República, você sofreu uma enxurrada de haters nos teus perfis nas redes sociais, te criticando e tudo mais. Como é que você lidou com isso? Imagino que agora isso já deu uma arrefecida, Você se estabeleceu como essa liderança, mas as respostas nas redes sociais ainda são díspares, não é?

É, as pessoas acham que a internet é terra sem lei e às vezes parece mesmo. Eu não estava acostumada com essas coisas. Depois do discurso na COP, as minhas redes sociais cresceram bastante e também chegaram esses haters, várias mensagens de ódio, machistas, racistas.


Eu confesso que em alguns dias isso me abalou um pouco, mas depois eu entendi que aquilo, nenhuma daquelas mensagens eram para contradizer o meu discurso, estavam falando nas redes da minha vivência, do meu trabalho. Eu refleti alguns dias: “O que eu faço com esse monte de gente aqui mandando essas mensagens para mim?”

Fiquei dois dias super tristinha, até postei nas minhas redes sociais, aí pensei: “Eu vou fazer o meu trabalho”. Separei algumas fotos de invasões de dentro do Uru-eu-wau-wau e postei nas minhas redes: “Vocês querem vir aqui falar esse monte de mensagens de ódio, então tá, vocês vão ver a realidade do que realmente está acontecendo”.

Na verdade, essas pessoas estão me dando engajamento, estão fazendo as minhas redes crescerem ainda mais e, consequentemente, que mais pessoas me escutem. E aí quando a gente voltou aqui para Porto Velho, que veio a preocupação de fato. Fui no mercado com meu marido, a gente foi a pé, a gente não tem carro, tinha uma pessoa, um carro seguindo a gente, acompanhando a gente bem devagarzinho.

Eu tive aquela impressão: “Acho que tem alguém seguindo a gente, será que é uma impressão minha?”. E aí o meu marido pegou e me puxou para o outro lado da rua, porque ele também percebeu o que aconteceu. Esse carro pegou, deu ré e foi para o outro lado da rua e continuou acompanhando a gente bem devagarzinho, tinha vidro fumê, então eu não conseguia ver quem era, mas foi claramente uma intimidação. Então aquilo sim, me assustou um pouco.

Edição: Leandro Melito