Reaproximação Política

Embora tímida, reaproximação do Brasil com a Venezuela é 'muito positiva', aponta cientista político

Um interesse claro reside na suavização do discurso norte-americano em relação à Venezuela: o petróleo.

Em 2019, o governo de Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, rompeu relações diplomáticas com a Venezuela. Na esteira dessa decisão, Jair Bolsonaro, presidente do Brasil e apoiador explícito do então mandatário norte-americano, fez muitos discursos contra o país vizinho, comandado pelo presidente Nicolás Maduro.

Um deles ocorreu naquele ano, durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na qual Bolsonaro declarou que o Brasil trabalhava "com outros países, entre eles os EUA, para que a democracia seja restabelecida na Venezuela, mas também nos empenhamos duramente para que outros países da América do Sul não experimentem esse nefasto regime".

Entretanto, quase três anos depois, a geopolítica mundial mudou, e o tom adotado por Bolsonaro, também: em discurso moderado na Cúpula das Américas, o chefe do Executivo brasileiro sequer citou a Venezuela — posição que, por sua vez, irritou os opositores mais ferrenhos de Nicolás Maduro.

"Deixo aqui uma mensagem de compromisso do Brasil com a integração das Américas, como continente próspero e democrático", declarou, sem menção a Caracas desta vez.

Nos bastidores, os antagonistas do presidente venezuelano atribuem a mudança de postura de Bolsonaro à recente aproximação com o presidente russo, Vladimir Putin, um dos maiores aliados de Maduro nos últimos anos, ante as pesadas sanções econômicas que foram impostas à Venezuela. Foi Moscou quem manteve relações comerciais com Caracas nesse período.

Mas a operação militar especial da Rússia na Ucrânia também afrouxou o isolamento venezuelano perante o Ocidente: na última terça-feira (28), uma delegação dos Estados Unidos desembarcou em Caracas a fim de dar continuidade a negociações iniciadas em 5 de março — a primeira visitação tornada pública após a ruptura das relações diplomáticas em 2019.

"[O presidente do Parlamento venezuelano] Jorge Rodríguez está recebendo uma delegação do governo dos Estados Unidos, uma delegação importante, que está trabalhando para dar continuidade às negociações iniciadas em 5 de março", disse Maduro ao canal de TV estatal Venezolana de Televisión, na segunda-feira (27).

Um interesse claro reside na suavização do discurso norte-americano em relação à Venezuela: o petróleo.

Em maio, em meio a pesadas sanções impostas ao petróleo russo, os EUA aprovaram a retomada das operações no país sul-americano para petrolíferas norte-americanas e europeias.

No começo deste mês, o Departamento de Estado dos EUA, segundo relatou a agência Reuters, permitiu que a italiana Eni e a espanhola Repsol retomassem o fornecimento de petróleo da Venezuela para a Europa.

Ensaio, ainda que tímido, de reaproximação brasileira

O Brasil, por sua vez, não ficou atrás e começa a dar sinais de que está se reaproximando de Caracas.

De acordo com a revista Veja, os voos comerciais entre Brasil e Venezuela foram retomados, além de uma série de flexibilizações implementadas a partir de uma missão do Grupo Parlamentar Brasil-Venezuela liderada pelo senador Chico Rodrigues (União-RR).

Roraima, estado que o parlamentar representa, faz fronteira com a Venezuela e deve ser um dos principais beneficiados com a iniciativa.

Entre essas medidas estão também o restabelecimento do fornecimento de energia elétrica venezuelana para Roraima (que representará uma economia aos cofres públicos e aos consumidores em torno de R$ 1,5 bilhão) e a instalação de um escritório em Caracas para desenvolver assuntos comerciais entre os dois países.

"Nós estamos apenas aproveitando um canal de diálogo para fazer diplomacia parlamentar", declarou o congressista, que é apoiador de Bolsonaro.

Retomada de relações entre Brasil e Venezuela é 'muito positiva'

Em conversa com a Sputnik Brasil, o cientista político e professor de relações internacionais Bruno Lima Rocha avaliou o restabelecimento das relações bilaterais como uma atitude "muito positiva", ainda que existam interesses eleitorais diante do pleito deste ano, que também reformulará parte do Congresso Nacional.

"Para esse senador e seu grupo político em Roraima, uma boa relação com a Venezuela ajuda, e muito, na campanha eleitoral. Sendo ou não oportunismo político em ano de eleição, é muito positivo tanto a Venezuela voltando a abastecer a energia elétrica de Roraima como ter uma representação no país, em Caracas, além da retomada dos voos comerciais. Tudo isso é muito positivo", enfatizou.

Na percepção de Rocha, com uma presença menos ostensiva do trumpismo na América Latina — que incidia diretamente na tensão entre Brasil e Venezuela —, o retorno da racionalidade fica mais facilitado. "É evidente que um Estado fronteiriço tem que ter boa relação com o país do outro lado", ponderou.

Ele também acredita que o fato de o Brasil ter adotado uma postura neutra em relação à operação militar especial da Rússia na Ucrâniainfluencia nas relações entre as duas nações sul-americanas.

"Com a postura de neutralidade diante do conflito ucraniano, o senador por Roraima não entra em atrito direto, ou quiçá indireto, com sua base, que é bolsonarista. Ele pode alegar que a reaproximação é uma necessidade e que não é possível confiar no governo dos EUA, que precisamos dos fertilizantes russos e que, por isso, propõe uma condição neutra. O presidente Bolsonaro tem uma posição neutra em relação ao conflito russo-ucraniano, o Brasil depende de fertilizantes russos, e a Rússia é uma grande aliada da Venezuela, em todos os sentidos. Dentro disso, não há como Roraima ficar à parte, sofrendo, já que não é preciso reproduzir uma linha à la Mike Pompeo e Donald Trump", analisou.

No entanto, ele classifica de exagero uma reaproximação entre os dois países.

"Pode implicar em uma relação mais amistosa e em uma perda de discursos binários feitos por Bolsonaro contra a Venezuela? Não creio. No meu entendimento há uma aproximação, de fato, entre os poderes amazônicos do estado de Roraima, com uma fronteira quentíssima, e o governo de Nicolás Maduro", finalizou.